Existe, de fato, uma nova ordem no campo do trabalho no mundo contemporâneo?
Davi J.N. Antunes: É difícil pensar uma situação única para todo o planeta, mas há um cenário predominante.
O que comanda os processos mais avançados é a reestruturação do mundo do trabalho a partir da Terceira Revolução Industrial. A informatização eliminou níveis médios de trabalho. Isso se vê sobretudo na estrutura de emprego nos Estados Unidos: uma máquina faz o trabalho de “n” pessoas diferentes.
Assim, o miolo da estrutura de ocupação desaparece e ficam os trabalhos nas pontas – os postos de pouca qualificação e os especializados. E, mesmo estes, estão mais concorridos. A nova ordem é essa.
Na China ainda é um pouco diferente, o emprego industrial não aumentou muito e a economia ainda é muito rural: há 700 milhões ocupados na agricultura. Não só lá, mas no mundo capitalista, ao lado da acumulação de pessoas nas pontas, observa-se a concentração de renda e a proliferação de ocupações em serviços pessoais, como cozinheiro, faxineiro, personal trainer, e até personal amigo! (risos)
O baixo preço pago pelos serviços pessoais leva os que possuem renda melhor a terem muitos serviçais em casa.Imagine que um trabalhador muito ocupado com seu trabalho encontra alguém que lhe oferece R$ 200 para passear com seu cachorro. Ele acha interessante, mas logo surge outra pessoa que lhe diz que, por R$ 100, leva o cachorro pra passear e ainda faz massagem no cachorro! (Risos). Esse acúmulo de serviçais é forte no Brasil, mas também existe em países da Europa, como Portugal e Espanha, que estão quebrando e se tornando países de serviçais e de turismo. Na Espanha inventaram o serviço doméstico sexual. Sabe o que é isso? Você contrata uma pessoa pra lavar sua louça, mas ela fica sem roupa fazendo o serviço! Pode?! Há milhares de anúncios só em Madri desse tipo de serviço (risos).