Mostrar mensagens com a etiqueta Poetas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poetas. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Morre, aos 97 anos, o poeta Manoel de Barros




Tratado geral das grandezas do ínfimo

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.

Manoel de Barros


UM ABRAÇO PARA MANOEL
por MIA COUTO

Dizem que entre nós
há oceanos e terras com peso de distância.
Talvez. Quem sabe de certezas não é o poeta.
O mundo que é nosso
é sempre tão pequeno e tão infindo
que só cabe em olhar de menino.
Contra essa distância
tu me deste uma sabedora desgeografia
e engravidando palavra africana
tornei-me tão vizinho
que ganhei intimidades
com a barriga do teu chão brasileiro.
E é sempre o mesmo chão,
a mesma poeira nos versos,
a mesma peneira separando os grãos,
a mesma infância nos devolvendo a palavra
a mesma palavra devolvendo a infância.
E assim,
sem lonjura,
na mesma água
riscaremos a palavra
que incendeia a nuvem.

19/12/2013

domingo, 1 de junho de 2014

Posologia para a alma Portuguesa

Para os dias frios e escuros:
rosas cravos e gerânios
ainda azulejos nas paredes.
Para paciência pouca:
rispidez.
Para líbido mal resolvido:
muita roupa preta.
Para o rosto duro das mulheres:
brinco de ouro.
Para fome de amor:
reclamações sem fim.
Para timidez:
palavras curtas e vinho longo.
Para tristeza arqueológica:
pitadas de gracejos.
Para culpa hereditária:
rezar, rezar, rezar
até incomodar os ouvidos de Deus.
Para os amores proibidos:
pecados, 
porque ninguém é de ferro.
Para emoções que transbordam:
poetas aos montes!
Para estreiteza da vida:
Mar.

Maria Antónia de Oliveira