“Vou ser directo, sem política ou filosofias. Sou um
cidadão de meia idade, com algumas debilidades físicas e a tendência é
agravarem-se. Faço parte (estatisticamente e de uma percentagem qualquer) de um
grupo considerado privilegiado - os empregados de baixo salário - porque ao
menos não estão desempregados. Pago impostos sem vontade alguma e com algum
constrangimento em o dizer, além de ter salários e subsídios em atraso. Já
estive farto desta situação, revoltado com as injustiças de que sou (somos) vítima.
Por momentos senti-me culpado por “ter vivido acima das minhas possibilidades”,
depois percebi que nunca vivi desafogado, o dinheiro que ganhei deu para ter
uma vida razoável, mas nunca sobrou para uma doença ser encarada com
tranquilidade financeira. O sentimento diário é-me desconhecido, ainda não
aprendi a viver com ele. Já não é revolta ou indignação, é uma “coisa” próxima
da humilhação, um vexame mensal ao receber pouco mais do que o ordenado mínimo,
sabendo de antemão que terei de aumentar as minhas dívidas para não ter de
ouvir dizer os meus filhos, e são três, dizerem que têm fome. Peço dinheiro
emprestado com a convicção de que não o pagarei e já não me ralo muito, pois
que mo empresta também sabe que o mais provável é ser a fundo perdido. Sou um
favorecido em ter o privilégio da servidão imposta pelo “antes isto do que
nada”? Gostava de ser “crente” para antever esta gente que me (nos) dirige
acabar no Inferno, ou então guerrilheiro e ser eu o juiz e o executor. Não
teria qualquer remorso ou me sentiria culpado”
Já li esta carta vezes sem conta, gostava de não me
identificar com ela, de não poder ser eu a redigi-la. Raios os partam a todos
por nos unificarem desta forma tão baixa e vil.
C.C.