quinta-feira, 24 de julho de 2014

Pessoal e Transmissivel - carta aberta de Carlos Curto

“Vou ser directo, sem política ou filosofias. Sou um cidadão de meia idade, com algumas debilidades físicas e a tendência é agravarem-se. Faço parte (estatisticamente e de uma percentagem qualquer) de um grupo considerado privilegiado - os empregados de baixo salário - porque ao menos não estão desempregados. Pago impostos sem vontade alguma e com algum constrangimento em o dizer, além de ter salários e subsídios em atraso. Já estive farto desta situação, revoltado com as injustiças de que sou (somos) vítima. Por momentos senti-me culpado por “ter vivido acima das minhas possibilidades”, depois percebi que nunca vivi desafogado, o dinheiro que ganhei deu para ter uma vida razoável, mas nunca sobrou para uma doença ser encarada com tranquilidade financeira. O sentimento diário é-me desconhecido, ainda não aprendi a viver com ele. Já não é revolta ou indignação, é uma “coisa” próxima da humilhação, um vexame mensal ao receber pouco mais do que o ordenado mínimo, sabendo de antemão que terei de aumentar as minhas dívidas para não ter de ouvir dizer os meus filhos, e são três, dizerem que têm fome. Peço dinheiro emprestado com a convicção de que não o pagarei e já não me ralo muito, pois que mo empresta também sabe que o mais provável é ser a fundo perdido. Sou um favorecido em ter o privilégio da servidão imposta pelo “antes isto do que nada”? Gostava de ser “crente” para antever esta gente que me (nos) dirige acabar no Inferno, ou então guerrilheiro e ser eu o juiz e o executor. Não teria qualquer remorso ou me sentiria culpado”
Já li esta carta vezes sem conta, gostava de não me identificar com ela, de não poder ser eu a redigi-la. Raios os partam a todos por nos unificarem desta forma tão baixa e vil.

C.C.

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