Quadro de José Malhoa "O Fado" 1910
Nascido nos contextos populares da Lisboa oitocentista, o Fado encontrava-se presente nos momentos de convívio e lazer. Manifestando-se de forma espontânea, decorria dentro ou fora de portas, nas hortas, nas esperas de touros, nos retiros, nas ruas e vielas, nas tabernas, cafés de camareiras e casas de meia-porta. Cantando o quotidiano, o fado encontra-se, numa primeira fase, vincadamente associado a contextos sociais pautados pela marginalidade e transgressão, em ambientes frequentados por prostitutas, faias, marujos, boleeiros e marialvas. Muitas vezes os cantadores, são descritos no tipo fadista, rufião de voz áspera e roufenha, ostentando tatuagens, hábil no manejo da navalha de ponta e mola, recorrendo à gíria e ao calão. Esta associação do fado às esferas mais marginais da sociedade da-lhe uma vincada rejeição pela parte da intelectualidade portuguesa.
Maria Severa Onofriana (Lisboa, 1820-1846) foi uma cantora portuguesa de fado, considerada a mítica fundadora do fado.
Filha de Severo Manuel de Sousa e de Ana Gertrudes Severa, nasceu em 1820 na Rua da Madragoa (actual Rua Vicente Borga), onde sua mãe tinha uma taberna, tendo passado por vários locais da cidade até se fixar na Mouraria, onde faleceu. Os locais do seu nascimento e da sua morte estão devidamente assinaladas com uma lápide, colocadas com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa.
Seu pai era de etnia cigana, e a mãe uma portuguesa de Ovar que, com outros pescadores da região, emigrara para Lisboa. Atribui-se a essa ascendência cigana a sua beleza exótica e o seu cantar expressivo, que conquistou os boémios da capital.
Sua mãe, Ana Gertrudes Severa, era uma célebre prostituta da Mouraria e Maria Severa terá ingressado muito cedo na mesma profissão, depressa se distinguindo nesse meio, como seria de esperar em semelhante contexto - pela beleza trigueira, como ainda pelos dotes invulgares de cantadeira de Fado.
De Severa contam-se muitas histórias dela e/ou com ela, umas talvez verdadeiras, outras talvez não tanto.
Conta-se que percorria os bairros populares de Lisboa, e a sua voz animou as noites de muitas tertúlias bairristas, tabernas ficaram famosa só pela sua presença.
Teve vários amantes conhecidos, entre eles o Conde de Vimioso (Dom Francisco de Paula Portugal e Castro) que, segundo a lenda, era enfeitiçado pela forma como cantava e tocava guitarra.
Morreu de tuberculose a 30 de Novembro de 1846, num miserável bordel na rua do Capelão, na Mouraria, em Lisboa, tendo sido sepultada no cemitério do Alto de S. João numa vala comum. Consta que as suas últimas palavras terão sido: “Morro, sem nunca ter vivido” — tinha 26 anos.

Sem comentários:
Enviar um comentário