domingo, 21 de junho de 2009

Ser e Parecer

Entre o desejo de ser
e o receio de parecer
o tormento da hora cindida

Na desordem do sangue
a aventura de sermos nós
restitui nos ao ser
que fazemos de contaque somos

Mia Couto (1981)

(nunca escrevi
sou apenas um tradutor de silêncios.. (Mia Couto)

Poemas de Mia Couto
Raiz de Orvalho e outros poemas aqui

4 comentários:

  1. Olha, este livro que eu estou a ler dele, Interinvenções, é lindo demais. Dá vontade de gritar ao mundo tudo o que ele lá diz...
    É mais uma das vozes de mudança, daquelas que dão esperança na humanidade...

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  2. Acho que o Mia ainda vai ser Nobel, talvêz da Paz, porque da literatura acho que já merece, sem querer idolatrar o homem... desde que o descobri tenho uma sintonia com o que diz, e admiro a capacidade (talento e criatividade) de traduzir em palavras, especialmente as que inventa, tudo o que pensamos e sentimos.Talvêz por ser da mesma idade e da mesma terra.
    ...não sei se ele está interessado no premio,e de certeza que o objectivo quando escreve não será esse...

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  3. O gajo é biólogo, e isso a mim fascina-me exactamente por ele conviver perfeitamente com a ciencia e o "misticismo", tal como eu...
    E vê para lá do "real". E sabe exprimir isso maravilhosamente com as palavras que cria...
    Pena ser tão casado :) (pena para mim, não para ele:))

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  4. de MIA COUTO

    Quando eu tinha nove anos, a Beira era a maior cidade do mundo. As avenidas de minha terra natal eram as mais largas do universo e apenas se esperava que o futuro, triunfal, por ali desfilasse. Na Praça do Município cabiam os mais demorados domingos da História, e o Chiveve competia com os mais amazónicos estuários.

    A estação ferroviária era de tal dimensão que ali poderia desembarcar Sophia Loren ou uma outra artista saída das matinés do Olympia. As mangas do Dondo eram comidas em todo o planeta e, do alto do farol do Macúti, se contemplavam extensões que fariam inveja aos astronautas.

    De noite, enquanto nos chegavam os sons dos batuques do Chipangara, eu e o meu irmão discutíamos, especialistas em lonjuras. Ele assegurava que a floresta de Inhaminga era o lugar mais distante do planeta. Eu abria o mapa-mundo e a Beira se confirmava epicentro cósmico. Confortado, adormecia com pena dos meninos que nasciam noutros periféricos lugares.

    Certa vez embarquei num avião para rumar a Lourenço Marques. A família veio despedir-se, em lágrimas, ao maior aeroporto do mundo e era como se eu partisse para além do último horizonte. A malta do bairro também foi ao aeroporto e lançou-me um derradeiro olhar, misto de inveja e raiva. Eu ia para território rival, para a terra dos “laurentinos”, contaminar-me de valores tribais alheios.

    Regressei uma semana depois com a suspeita de que havia lugares mais distantes que Inhaminga e cidades maiores que a minha. Nos dias subsequentes, fui colocado em quarentena, punido por confessar que, afinal, outros mundos poderiam haver.

    Na altura, eu não sabia que as pequenas cidades vivem sempre o sonho de serem outra coisa. Sonham ser grandes cidades. A minha terra natal, era, afinal, um lugar acanhado, onde o mundo chegava em segunda mão. Talvez, por isso, o tamanho dos nossos sonhos fosse reforçado. Talvez, por isso, o meu lugar tivesse ficado maior quando o soube pequeno. Naquele momento, porém, eu estava sendo penalizado como Galileu que ousou descentrar o cosmos. Deixado em abandono pelos amigos, fui pescar para os lados do porto. Ao passar pelo Beira Terrace, uma multidão me alertou: num lugar onde nada sucedia algo trágico acontecera. Estavam retirando das águas os corpos de dois jovens que se tinham suicidado. Um detalhe me chamou a atenção: estavam amarrados pelos pulsos, um arame lhes prendia o fatal destino. Eram dois namorados, impedidos de exercer o seu amor porque pertenciam a raças diferentes.

    Sentado na amurada do cais, sem nenhuma vontade de lançar a linha, olhei a cidade e ela, pela primeira vez, me pareceu pequena. Como poderia ser grande um lugar se nele não cabia o amor de dois anónimos adolescentes? Até àquela tarde eu era ainda um moço capaz de sonhar vidas e viver sonhos.

    Naquele momento creio ter entendido: a cidade não é um lugar. É a moldura de uma vida, um chão para a memória. Enrolei a linha, e regressei a casa, o poente avermelhando a paisagem e os flamingos trazendo o céu para junto da terra. Então, ganhei certeza: a cidade em que nasci estava destinada a nascer de mim. Um arame invisível nos prendia os pulsos, a mim e à minha terra natal. Se alguma vez nos atirássemos sobre o abismo não seria para nos afundarmos mas para ganharmos voo, o mesmo voo dos flamingos cruzando os poentes sobre o rio Pungwé.

    (Abril de 2007)

    COUTO, Mia (2010): Pensageiro Frequente.

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